#MemóriaQueer: os mapas que lutam contra a invisibilidade queer

Plataformas interativas disponíveis on-line permitem que colaboradores compartilhem suas ‘memórias queer’ ao redor do mundo

Uma árvore no parque Jeanne-Mance, em Montreal, foi o ponto de partida para que o canadense Lucas LaRochelle desenvolvesse o projeto “Queering The Map”. O estudante, que não se identifica com o gênero masculino, associava ao lugar lembranças de seu primeiro relacionamento. E ficou curioso sobre outros pontos na cidade que fossem igualmente significativos para pessoas da comunidade queer e LGBT.

Em 2017, Lucas desenvolveu um mapa interativo em que pessoas queer pudessem, de maneira anônima, marcar locais nas cidades compartilhando lembranças de suas experiências. Os relatos vão desde desabafos até mensagens de orgulho e histórias de amor. São bem-vindas todas as informações relacionadas a experiências queer, locais queer, aspectos que ajudem a reconstruir a história dessas pessoas e da sua relação com o espaço.

“O objetivo do projeto é tornar ‘queer’ o maior número de espaços possível, de bancos de parques a estacionamentos, para marcar momentos de pessoas queer onde quer que eles ocorram”, explicava o fundador no site.

O mapa ultrapassou as fronteiras do Canadá. Aos poucos, começou a ser usado também nos Estados Unidos e, em seguida, em muitos outros países. Em fevereiro de 2018, 5.000 pessoas já haviam usado o marcador para compartilhar uma lembrança. Tão rápido quanto o ganho de popularidade (existem relatos em países da América do Sul, Europa, África e Ásia, entre outros), a plataforma foi alvo de ataques. O acesso, até então, era livre e  permitia que qualquer pessoa pudesse deixar seu depoimento, o que resultou em uma enxurrada de posts desassociados da proposta. Nos Estados Unidos, um grande número de marcações em apoio ao presidente Donald Trump, entre outras colocações, fez com que LaRochelle suspendesse o site provisoriamente.

Embora esteja fora do ar, o Queering The Map mantém atualizações por meio de sua página no Facebook. A ideia é que o projeto volte a funcionar normalmente em algumas semanas, com mais recursos que ajudem na moderação do conteúdo e garantam, também, a privacidade de quem compartilha sua história. Comunidades ‘queer’ no mundo digital Na origem, ‘queer’ é palavra carregada de preconceito. Há registros do uso do termo ‘queer’ ainda antes do século 19 com o significado de torto, peculiar, excêntrico.

A partir daí, a palavra passou a ser usada para definir gays e quaisquer indivíduos que não fossem heterossexuais ou cisgêneros (quem se identifica com o gênero atribuído no nascimento), com uma crescente aplicação pejorativa. Segundo o dicionário Oxford, entretanto, no final da década de 1980 parte da comunidade gay se apropriou do termo ‘queer’ para esvaziá-lo de seu sentido negativo e congregar gays, lésbicas e outras sexualidades, assim como indivíduos com outras identidades de gênero. As primeiras organizações – e também as primeiras repressões – de pessoas LGBT no espaço virtual surgiram no início da década de 1980, quando a internet dava seus primeiros passos.

Na França, antes da popularização dos computadores, o aparelho Minitel foi revolucionário na organização de comunidades queer, segundo a professora associada da Universidade de Illinois Tamara Chaplin. O dispositivo era um pequeno terminal ligado à linha telefônica, com teclado e monitor, em que era possível acessar fóruns de notícias, ver a previsão do tempo, consultar ações e enviar mensagens a outros usuários. Diversas comunidades organizadas de homossexuais se formaram por meio do contato digital, que permitia que as informações ultrapassassem as fronteiras de Paris e chegassem a cidades menores na França, com a vantagem da privacidade.

Em um artigo, Tamara Chaplin mostra que oposições às primeiras atividades do universo queer no espaço digital foram bastante comuns. Em 1988, o provedor alemão Prodigy tentou obter uma proibição judicial para fóruns gays on-line. Na França, a Confederação Nacional de Famílias Católicas Associadas dizia que o Minitel reforçava o suposto comportamento promíscuo de homossexuais e advertia que a interação virtual colocaria a França na posição de país mais afetado pela Aids.

Um dos primeiros portais queer acessíveis internacionalmente foi o americano net.motts (motts é um acrônimo para “membros do mesmo sexo”), criado em 1983. O endereço sofreu resistência da direção do grupo USENET, do qual fazia parte.

Ferramentas que descortinam a memória LGBT

Em 2016, o Google Maps ganhou uma versão personalizada, criada para que as pessoas pudessem marcar boas lembranças e momentos de orgulho e respeito à diversidade ao redor do mundo.

O projeto Places of Pride (Lugares de Orgulho) foi feito para o Fair Day, data em que a Austrália celebra o orgulho gay, mas ainda pode ser acessado. No Brasil, existem registros de colaboradores na Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Um dos idealizadores do mapa é Patrick Hofmann, integrante da equipe do Google Maps em Sydney. Na época do lançamento, ele compartilhou sua história no blog do Google Austrália. Nascido em uma área rural do Canadá, Hofmann escondeu sua homossexualidade por anos, por medo de ser o único gay das imediações. “Nesses anos sufocantes, eu teria amado ver um mapa que mostrasse o alcance da comunidade. Um mapa do orgulho teria me dado mais confiança, mostrando o número de pessoas como eu ou que me apoiariam – não apenas um coro distante ao redor do mundo, mas potencialmente na minha própria comunidade rural”, escreveu.

Além de criar pontes entre as comunidades queer no mundo, novas plataformas lutam contra a invisibilização da história LGBT. Nos Estados Unidos, o NYC LGBT Historic Sites Project disponibiliza, on-line, um mapa interativo com lugares que ajudam a contar a história de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais na cidade. O site mapeia endereços onde moraram e trabalharam artistas e ativistas LGBT, ruas em que grupos protestaram por igualdade de direitos e outros lugares históricos, como museus e teatros, desde a fundação da cidade, no século 17.

Além da plataforma, que é aberta para contribuições de usuários, a organização também exerce a função de designar endereços para o Registro Nacional de Lugares Históricos, em cuja lista a população LGBT ainda é sub-representada. Dos 93.500 endereços registrados ao redor dos Estados Unidos, menos de 20 estão relacionados à comunidade.

Os fundadores do NYC LGBT Historic Sites Project  foram membros da (OLGAD) Organização de Arquitetos e Designers Gays e Lésbicas, que publicou o primeiro mapa norte-americano de lugares históricos da população LGBT, na década de 1990. Na Inglaterra, uma iniciativa parecida foi inaugurada em 2015. O projeto Pride of Place, sob comando do órgão público responsável pela preservação do patrimônio histórico britânico, realiza pesquisas sobre endereços e paisagens relacionados à herança LGBT no país, muitos deles desconhecidos ou não documentados. O projeto também disponibilizou um mapa colaborativo, em que estão desde edificações históricas a bares e outros locais de lazer ainda em atividade.

Fonte: NEXO

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