Maria da Penha e a cor do Patriarcado

Participei hoje de uma palestra sobre a Leia Maria da Penha.

No início, eram poucas participantes.

Pensei: Ok, só isso de mulheres? Ah, então…tá…

Para minha surpresa, dez minutos depois a sala estava lotada e o clima não era nada amigável.

Podia-se sentir o cheiro da dor no ar.

Em cada semblante,  uma revolta.

Em cada olhar, uma tristeza profunda.

Era perceptível na postura de todas um sentimento de recato e vergonha.

Com o passar do tempo, a palestra começou a tirar algumas do silêncio mortal  e deu lugar à raiva.

Algumas pareciam não entender exatamente o que a psicóloga palestrante dizia.

Outras, ecoavam suas vozes falando abertamente que não eram meros objetos.

Uma senhora ainda mais corajosa, falou que era necessária a comunhão entre todas as mulheres, para que pudéssemos vencer essa onda de violência que nos atinge.

Aconteceram relatos dolorosos e a palestrante tentava conter os ânimos passando  confiabilidade no sistema penal.

Porém, a grande maioria ali presente se dizia amedrontada mesmo com as medidas protetivas expedidas pelo Poder Judiciário.

Infelizmente a realidade é cruel.

Sabemos que a uma parte dos ex-parceiros denunciados não temem nada.

Pelo contrário, usam do poder da convicção de que continuarão impunes.

Talvez no fundo eles saibam que o tempo está a favor deles.

Uma mulher comentou que a irmã foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro  mesmo com dezenas de ordens restritivas obtidas. 

A vítima teve a garantia de vida dada por um policial que assegurou “que o homem jamais teria coragem para tanto! Calma, cão que late não morde!”

A moça foi assassinada friamente e o executor  segue foragido.

Foram quase duas horas de um sofrimento relatado em cores vermelhas.

Mas, a maior surpresa foi ter ouvido uma vítima dizer que é perseguida pela ex-esposa e que a mesma a espancou e tentou estupra-la com um pedaço de cano.

Nesse momento eu fiquei mais que estarrecida.

Fui tomada por um tremor no corpo que me deixou totalmente muda.

Olhei para aquela mulher e vi nela tanto sofrimento, tanta decepção, que fui obrigada a engolir o choro e fingir fé em algo superior.

Até então eu não imaginava que a violência doméstica já havia atingido nossas irmãs lésbicas.

Que miséria de mundo é esse em que vivemos?

Como pode alguém do mesmo gênero fazer uso de algo tão grotesco quanto o estupro?

Percebi  que tenho tido uma vida muito boa.

Ouvir e observar aquelas mulheres fez-me sentir um nada no meio do universo.

O que é a minha depressão ou o meu medo diante do horror pelo qual todas foram expostas?

É absolutamente revoltante perceber o quanto nossa sociedade está doente.

Não há lugar de expiação pior que a terra.

Que me desculpem os religiosos, mas o inferno é aqui!

Não há nada que possa ser feito para devolver àquelas mulheres a dignidade e a coragem.

Todas, sem exceção, sabem que um dia poderão estampar a capa do tabloide mais barato da cidade.

E que farão parte das  assustadoras estatísticas.

Ser mulher, ser humana, ser gente….

Tarefa quase impossível  nos tempos do patriarcado a que somos subjugadas.

E você ainda fala em votar em Bolsonaro?

Ah, pense, repense.

E só por um minuto, tente se colocar no lugar de nossas irmãs.

Juntas somos mais fortes.

Juntas somos invencíveis.

Mexeu com uma, mexeu com todas!

Ter empatia pelo dor do outro é um luxo.

Que tal começar a desenvolver esse sentimento antes de fazer alguma burrada nas urnas?

Tente aí.

Um comentário sobre “Maria da Penha e a cor do Patriarcado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.